Mercado do Seu Chico
Revista literária docomerciante do Piauí
Prosa de balcão16 de setembro de 2026

O vento trançado na palha

O vento trançado na palha

O barulho da palha seca roçando uma na outra avisa antes mesmo de a pessoa passar da porta. Era Dona Carmelita, vindo do fundo do quintal dela com um feixe de abanos de carnaúba debaixo do braço, ainda cheirando a mato seco pelo sol quente da tarde.

Ela encostou os abanos no canto do balcão, ajeitou o pano no ombro e disse que a palha esse ano veio limpa, verdosa na ponta e dura no talo. No mormaço pesado que baixa por aqui pelas quatro da tarde, um abano desse trançado no capricho vale mais do que muita conversa comprida.

Quem entrava pra comprar um quilo de sal ou uma caixa de fósforo logo esticava a mão, pegava um abano e começava aquele balanço ritmado. Não é só pra espantar o calor que entra pela soleira; é um jeito de acalmar o juízo enquanto o troco se ajeita na mão.

Dona Carmelita trocou dois abanos por um pacote de café e seguiu o caminho dela na poeira da rua. Olhei praquele trançado bonito em cima da madeira e pensei: no sertão, quando o vento demora a vir por vontade própria, a gente trança ele com as próprias mãos.

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