Mercado do Seu Chico
Revista literária docomerciante do Piauí
Prosa do balcão12 de outubro de 2026

O mel de Picos no balcão

O mel de Picos no balcão

A luz da manhã bateu em cheio na garrafa que Seu Benício encostou no balcão e parecia até que o mercado tinha aceso um candeeiro de ouro. Ele veio rodando lá do rumo de Picos, carregando no caixote o mel da florada nova do marmeleiro, grosso e cheiroso de fazer a língua estalar.

Dona Tertuliana entrou devagarzinho, limpando a poeira da piçarra das chinelas, reclamando de um pigarro chato na garganta desde que o ar esfriou na madrugada. Benício nem esperou ela pedir: tirou a rolha de sabugo, pendeu o gargalo e tirou um fio dourado direto numa colher de pau. 'Tome, comadre, que isso aqui é remédio feito por quem entende de flor e de espinho', disse ele, arrancando um sorriso contido da velha.

A gente ficou ali olhando aquele mel escorrer devagar, sem pressa nenhuma, grudando no vidro e brilhando na madeira gasta. Sertão tem dessas coisas, visse! Quem é de fora acha que a caatinga é só galho seco e poeira levantada no vento, mas não sabe a doçura que as abelhas tiram do miolo da mata de pé rachado.

No fim das contas, Seu Benício levou dois quilos de sabão de soda e um pedaço de rapadura, enquanto o cheiro de cera e florada ficou passeando entre as prateleiras até o meio-dia, lembrando todo mundo que encostava no balcão que a vida aqui sabe compensar quem tem paciência.

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Prosa do balcão25 de agosto de 2026

A porta que também é um começo

A porta que também é um começo

Teve um dia — sexta de movimento, aquele tipo de sexta que não para — que entrou aqui um rapaz que eu não conhecia de cara. Comprou um refrigerante, ficou encostado no balcão, e ficou olhando a placa perto da porta: "Aqui tem CoBan".

— Seu Chico, isso aí é o quê, exatamente?

Sentei o copo dele, puxei um banco, e contei.

Faz um tempo que, além de vender arroz, feijão, sabão e conversa, eu também viro um ponto de atendimento pra alguns serviços bancários — pagamento de boleto, recarga, saque, esse tipo de coisa. Isso, no nome técnico, chama correspondente bancário, e o apelido que pegou por aqui foi CoBan. Não é eu virando banco. É o banco chegando mais perto de quem mora longe de agência — e, de quebra, uma renda extra que ajuda o mês do próprio comércio.

O rapaz — descobri depois que se chamava Anderson, tinha uma padaria do outro lado da praça, ali mesmo no interior do Piauí, cidade pequena onde todo mundo se conhece — ficou pensativo.

— E dá pra qualquer comércio ter isso?

Falei que não sei responder por ele. Quem decide isso é a instituição financeira, cada caso é avaliado com calma, com critério — não é balcão que levanta a mão e já vira CoBan no dia seguinte. Mas contei o que percebi, no meu caso: ajudou ter um comércio já estabelecido, ser conhecido na região, ter aquela confiança que só se constrói morando e trabalhando no mesmo lugar por anos. Empreender no interior é isso — não é só vender, é ser parte do dia a dia de quem compra.

— E se eu quiser aprender mais sobre crédito, sobre como cuidar melhor do dinheiro da padaria?

Aí eu disse uma coisa que acho importante: eu não sou especialista nisso, sou só um comerciante que foi aprendendo na prática. Quem quer se aprofundar de verdade tem caminho bom pra isso — o Sebrae Piauí (https://pi.loja.sebrae.com.br/) dá oficina de crédito e cobrança pra pequeno negócio, várias vezes no ano, e a Fecomércio do Piauí (https://fecomercio-pi.portaldocomercio.org.br/) também representa e apoia o comércio do estado inteiro, com informação que ajuda muito quem tá começando ou querendo crescer. Não sou ligado a nenhum dos dois, viu — só sei que existem, e que valem a visita.

Anderson terminou o refrigerante, agradeceu, e antes de sair falou:

— Vou pesquisar isso direito.

Fiquei pensando, depois que ele saiu, que negócio pequeno cresce assim: um freguês curioso, uma pergunta na hora certa, uma resposta honesta. Não tem fórmula mágica — tem conversa de balcão, e a vontade de ajudar o outro a caminhar um passo à frente.

Se você também tem um comércio e ficou curioso sobre isso — sobre CoBan, sobre correspondente bancário, sobre como um negócio pequeno pode oferecer mais pro freguês — pode continuar acompanhando as prosas por aqui. Assine a revista, é de graça, e de vez em quando eu conto mais dessas histórias.