O casaco do tempo frio

Coisa rara de ver por aqui é cabra de casaco dobrado no armário. Mas quando seu Raimundinho desceu de viagem das bandas de Pedro II, vinha trazendo um vento fino na garupa da moto que fez o povo do mercado cruzar os braços pra se proteger.
Ele encostou perto da prateleira de farinha, pediu um café bem quente e soltou: 'Lá em cima na serra, perto do Mirante do Gritador, a friagem da noite faz a gente esquecer até que mora no Piauí.'
O povo que tava arengando por causa de conversa fiada parou tudo pra ouvir. O comércio cheio de sacos de mantimento empilhados parecia ter virado sala de visita. Cada um queria contar de uma vez a memória de quando sentiu o corpo arruiar de frio numa noite de julho.
Às vezes a gente acha que conhece a própria terra inteira, mas o sertão é grande demais pra um juízo só guardar. Sempre tem um canto de serra pronto pra ensinar novidade pra gente.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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