O troco que faltava

Gente pequena ensina mais sobre o balcão do que muito livro de comércio. O meninote de seu Raimundo entrou no mercado prendendo o suor na testa, com a mão fechada que nem cofre de segredo.
Abriu os dedos devagarzinho na minha bancada: tinha três moedas amareladas e duas de dez centavos, todas melecadas de poeira. Queria um pedaço de pé-de-moleque pra comer antes de ir pro ensaio da quadrilha do bairro.
Refiz a conta duas vezes só pra confirmar. Faltava pouco, uns dez tostões. O menino olhou pro doce, olhou pras moedas e já ia recolhendo a mão, com aquele jeito tristonho de quem conhece o tamanho do bolso da família.
Aí seu Valtinho, que tava no canto encostado na saca do arroz, tirou uma moeda do bolso da camisa, jogou em cima do balcão e disse: 'Bota na minha conta, Chico, que amanhã ele me paga com um sorriso no terreiro.' O menino saiu voando com o doce na mão e a gente ficou ali, sabendo que é assim que a vida no sertão se ajeita.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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