O tempero da panelada no balcão

O cheiro de cominho torrado e pimenta-de-cheiro cruzou a rua antes mesmo de eu abrir a segunda folha de madeira da porta. Compadre Tião, sapateiro de mão cheia que nunca tira o chapéu de massa amassado da cabeça, botou o corpo pra dentro do mercado limpando o suor da testa no dorso da mão.
— Chico, me passe logo três cabeças de alho e aquele maço de pimenta-de-cheiro bem viçosa, que a panelada tá chiando no fogo desde as três da madrugada e o caldo tá pedindo arremate, visse! — disse ele, encostando os braços no balcão gastinho.
Enquanto eu escolhia as pimentas mais cheirosas na caixa de madeira, a conversa ajuntou gente. Seu Zezinho, que vinha passando com a enxada no ombro rumo ao roçado, encostou só pra aspirar aquele perfume forte de mocotó e bucho cozido que já vinha impregnado no casaco do Tião. Aqui no interior do Piauí, a panelada no sábado bem cedo não é prato de enfeite; é o sustento reforçado de quem passou a semana no cabo da ferramenta ou na estrada de piçarra.
Tem comida que alimenta o corpo, mas a panelada bem temperada o sertanejo sente é no peito. É o tipo de sustança de quem é pé rachado e sabe que a vida por aqui exige prumo logo na primeira hora da manhã.
Tião pegou as pimentas embrulhadas no papel de pão, me pagou no trocado contado e saiu na pressa de quem não pode deixar o caldo passar do ponto. O mercado ficou tomado daquele vapor gostoso, mostrando pra todo mundo que chegava que o dia já tinha começado de espinha ereta e corpo forte.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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