O ritmo do pilão no balcão

Quem passou perto da porta do mercado por volta das dez da manhã escutou a batida pausada do pilão de maçaranduba. Dona Raimunda, que mora ali pertinho e tem a mão mais certa do lugar, resolveu ajeitar uma paçoca de carne de sol pra vender umas porções aqui no balcão. O som ritmado — tump, tump, tump — parecia um relógio antigo medindo as horas sem pressa nenhuma.
Quando ela abriu o pote de vidro pra me mostrar, subiu aquele vapor quente com cheiro de carne assada na brasa, manteiga da terra e farinha de mandioca novinha. O povo que estava comprando querosene e fumo de rolo parou na hora. Compadre Valtinho, que vinha apressado pra resolver uns papéis na rua, encostou as duas mãos na madeira do balcão e soltou um suspiro de quem encontrou o que nem sabia que estava procurando.
Dona Raimunda serviu uma porção pequena numa folha bem limpa pra cada um provar. A paçoca desmanchava na boca, nem seca demais, sem gordura, no ponto exato que só o braço acostumado na lida do pilão consegue dar. Ela me olhou por cima dos óculos de grau presos num cordão e disse: 'Seu Chico, o segredo não é a força, é a paciência pra carne e a farinha virarem uma coisa só'.
Fiquei pensando que a vida no interior do Piauí tem muito disso. A gente vai socando as dificuldades do dia a dia devagarinho, juntando um bocado de afeto aqui com um bocado de prosa ali, até tudo virar substância boa. Comida feita na pressa até atende a fome do corpo, visse, mas só a conversa socada sem pressa no pilão alimenta a alma da gente.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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