O recado no rádio a pilha

O chiado seco do rádio a pilha, bem do lado das caixas de sabão em barra, anuncia que já deu cinco horas da tarde. Seu Cosme encosta a bicicleta velha na soleira da porta, tira o chapéu de feltro surrado e entra sem dar um pio, de orelha bem inclinada pro alto-falante.
Ele não vem em busca de querosene, nem de quilo de sal. O negócio de Seu Cosme é a hora dos avisos da Rádio Difusora. Fica ali, com as mãos calejadas apoiadas no balcão de madeira maciça, esperando saber se o sobrinho chegou são e salvo nas bandas de Picos ou se a encomenda de linha de pesca vem no ônibus da noite.
No sertão, a notícia não corre com apressamento de cidade grande; ela vem flutuando no ar entre um chiar e outro do dial. 'Seu Chico, pilha fraca é que nem paciência de pé rachado: parece que vai apagar, mas ainda dá sinal', ele me soltou ontem, arrumando o trocado na mesa pra pagar uma mariola do baleiro de vidro.
Quando o locutor se despede e a transmissão volta pro chiadouro puro, Seu Cosme ajeita o chapéu, manda um 'até amanhã, visse!' e ganha a poeira da rua. O mercado sossega de novo, mas fica aquela certeza boa de que, por mais longe que a gente mude, o sertão sempre dá um jeito de manter todo mundo perto.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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