Mercado do Seu Chico
Revista literária docomerciante do Piauí
Prosa de balcão22 de setembro de 2026

A fita de sisal e a balança de prato

A fita de sisal e a balança de prato

Quem é de prestar atenção no barulho das coisas sabe o estalo diferente que o feijão-de-corda novo faz quando bate no prato de latão da balança. Não é pancada seca de grão velho; é um chiado macio, parecendo chuva fina caindo em folha de palha.

Compadre Severino encostou aqui logo cedo, tirando o chapéu pra sacudir a poeira vermelha da piçarra. Trazia no ombro um saco de pano grosso atado com fita de sisal. Severino é homem de pouca conversa e tem um olho meio caidinho de tanta terra cavada na roça, mas quando abre a boca pra falar da terra, todo mundo no mercado cala pra escutar. Desatou o nó com os dedos calejados e virou o feijão roxo no prato.

Coloquei o peso de ferro fundido no outro lado da haste. O prato desceu no baque certo, balançou duas vezes e sossegou alinhado, sem vacilar nem pra lá nem pra cá. O cheiro de vagem seca se misturou com a fumaça do café de coador de pano no balcão. Dona Das Dores, que esperava a vez pra comprar querosene, pegou um punhado, olhou de perto e soltou um 'visse!' de admiração que fez o mercado todo sorrir.

A gente ajusta o parafuso da balança todo mês pra não ter erro, mas tem medida que o ferro não pega. Quando o homem do campo entrega a colheita na mão da gente sem arenga e sem pressa, a palavra empenhada pesa mais do que qualquer quilo do mostrador.

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