Mercado do Seu Chico
Revista literária docomerciante do Piauí
Prosa do balcão14 de setembro de 2026

O ouro engarrafado no balcão

O ouro engarrafado no balcão

O tinido de duas garrafas de vidro batendo uma na outra dentro do saco de palha anunciou a chegada de Seu Raimundo da Cruz antes mesmo de ele pisar na soleira. Era finalzinho de tarde, daquele mormaço que parece colar a camisa nas costas, e ele vinha trazendo o primeiro lote da cajuína que fez no quintal, clareada no pano fino e cozida no tacho.

Um rapaz que parou aqui pra calibrar o pneu da moto olhou meio cismado quando Seu Raimundo alinhou as garrafas no balcão de madeira. O sol das cinco bateu certeiro na quina da mesa e atravessou o vidro limpo, projetando um facho amarelão e vivo bem no peito da prateleira de farinha, feito lanterna acesa.

O rapaz de fora pediu um refrigerante de lata bem gelado, mas Seu Raimundo nem respondeu: tirou a tampa de metal com o canivete e serviu um gole no copo americano pra ele provar. Quando aquele doce puro do caju, sem nada de travoso, desceu na garganta, o moço guardou o celular no bolso e ficou só sentindo o gosto.

Tem coisa no Piauí que não precisa de rótulo de papel nem de propaganda pra mostrar o valor que tem; a luz que atravessa o vidro transparente já conta a história todinha da paciência de quem fez.

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