O mormaço das três da tarde

Mormaço de três da tarde por aqui não é calor não, é um teste de paciência que a natureza bota na gente. A poeira da rua assenta, nem cachorro late e o vento esconde até a sombra.
Sexta passada encostou um rapaz num caminhão baú, vindo das bandas de Oeiras. Entrou estropiado, limpando o suor da testa com o manguito de pano. Não pediu guaraná nem água gelada; pediu só licença pra sentar no caixote de madeira perto da garrafa de aluá.
Ficou ali calado uns vinte minutos, só ouvindo o barulho do chocalho do boi que um menino balançava na calçada. Tomou um copo do aluá de milho com rapadura bem descansado que minha comadre preparou, respirou fundo e olhou pra mim.
Disse só: 'Seu Chico, a estrada tá fervendo, mas esse canto aqui tem sombra no juízo.' Pagou o copo, deu um nó no lenço e seguiu viagem. Tem dia que o mercado serve é pra desentortar o cansaço do povo.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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