O mel de Picos no balcão

A luz da manhã bateu em cheio na garrafa que Seu Benício encostou no balcão e parecia até que o mercado tinha aceso um candeeiro de ouro. Ele veio rodando lá do rumo de Picos, carregando no caixote o mel da florada nova do marmeleiro, grosso e cheiroso de fazer a língua estalar.
Dona Tertuliana entrou devagarzinho, limpando a poeira da piçarra das chinelas, reclamando de um pigarro chato na garganta desde que o ar esfriou na madrugada. Benício nem esperou ela pedir: tirou a rolha de sabugo, pendeu o gargalo e tirou um fio dourado direto numa colher de pau. 'Tome, comadre, que isso aqui é remédio feito por quem entende de flor e de espinho', disse ele, arrancando um sorriso contido da velha.
A gente ficou ali olhando aquele mel escorrer devagar, sem pressa nenhuma, grudando no vidro e brilhando na madeira gasta. Sertão tem dessas coisas, visse! Quem é de fora acha que a caatinga é só galho seco e poeira levantada no vento, mas não sabe a doçura que as abelhas tiram do miolo da mata de pé rachado.
No fim das contas, Seu Benício levou dois quilos de sabão de soda e um pedaço de rapadura, enquanto o cheiro de cera e florada ficou passeando entre as prateleiras até o meio-dia, lembrando todo mundo que encostava no balcão que a vida aqui sabe compensar quem tem paciência.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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