O freguês que nunca pagou

Tinha um senhor aqui no bairro, seu Antônio, que vinha todo dia de manhã buscar dois pães e um pacote de café. Eu anotava na caderneta. Ele dizia: 'Chico, no fim do mês eu acerto'. Fim do mês nunca chegava. E eu nunca cobrei.
Vou te contar por quê. Seu Antônio morava sozinho, mulher tinha ido embora, filhos tavam longe. O que ele buscava aqui não era pão. Era gente.
Um dia ele parou de vir. Fui saber depois que tinha falecido. A caderneta ficou aberta em cima do balcão por meses. Não tive coragem de fechar.
Seu Antônio nunca pagou a caderneta dele. Mas me pagou com uma coisa que dinheiro nenhum compra: a certeza de que esse balcão tem serventia pra além de vender arroz.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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