Mercado do Seu Chico
Revista literária docomerciante do Piauí
Prosa do balcão02 de setembro de 2026

O corte do fumo no balcão

O corte do fumo no balcão

É só o seu Vítor encostar na ponta do balcão, que eu puxo o canivete bem amolado pra todo mundo no mercado saber que a manhã começou de verdade. Ele nem pede nada logo de cara. Primeiro assenta o chapéu de couro na madeira gastada do balcão, olha o movimento da rua de terra batida lá fora e dá aquele "bom dia" arrastado que parece vir lá do fundo do peito.

O fumo de rolo fica pendurado bem do lado da balança, numa corda escura e cheirosa que a gente traz do sertão. Eu corto uns três dedos com a precisão de quem conhece a roça na palma da mão e começo o corte devagarzinho. O cheiro forte e curtido do fumo vai subindo pelo comercio todo, se misturando com o aroma do café queimado no litro térmico perto do caixa.

Enquanto a lâmina vai tirando as lascas finas, a conversa corre solta entre quem tá esperando o pão ou olhando as prateleiras de mantimento. Fala-se do mormaço que vem subindo da estrada, da criação no pasto, do preço da farinha. Ninguém ali tá com pressa de pegar o troco ou ir embora!

É que o balcão da gente não serve só pra apoiar mercadoria. É lugar de descansar o juízo e ver que a vida não precisa correr mais rápido que um canivete rasgando corda de fumo. Quando eu guardo a lâmina no bolso e embrulho as lascas no papel pardo, o dia já tá inteiro ajeitado na cabeça de todo mundo.

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Revista Literária Memórias de Balcão

Revista Literária · Edição nº 01

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