O cheiro do arroz de Maria Isabel

“Seu Chico, me corte três dedos dessa carne de sol mais gordinha, que hoje a panela vai ser funda!” Foi assim que Compadre Damião entrou pela porta antes das nove da manhã, trazendo no chapéu a poeira amarela da piçarra e nos olhos aquela pressa respeitosa de quem tem ajudante esperando na roça. Hoje era dia de mutirão pra erguer a cerca de estaca do sítio dele, e trabalho no pesado sem a promessa de uma boa Maria Isabel no meio do dia nem pega ritmo.
Peguei a faca de cabo de osso, selecionei a peça que descansava no gancho de ferro e fui tirando as fatias. Carne de sol no ponto certo, daquelas que solta o sal sem perder a sustança. Damião olhava o prato da balança assentando e dizia: “Maria Isabel boa não tem mistério nem enfeito de fora, visse? É o arroz cozido no caldo da carne desfiada na ponta da faca, alho batido, cheiro-verde bem miúdo e aquela gordurinha que gela no fundo da panela de ferro.”
Enquanto eu embrulhava o pedido no papel pardo, pensei na quantidade de fome que esse prato já sustentou por esse Piauí afora. Desde o tempo dos antigos que a gente aprendeu a misturar o arroz com carne seca pra render o sustento de quem pega no cabo da enxada. No sertão, a comida de verdade é essa que não faz cerimônia pra sentar junto; a gente bota a panela no meio da mesa e todo mundo vira da mesma família no primeiro bocado.
Damião ajeitou o embrulho debaixo do braço, pagou no trocado contado e saiu rindo na poeira do terreiro, prometendo que se sobrasse um pregado no fundo da panela mandava uma marmita pra mim. Fiquei no balcão vendo a luz quente da manhã entrar pela porta, sabendo que tem tempero que é mais que gosto: é a certeza de que ninguém passa pelos dias duros sozinho.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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