O cheiro da goma nova no balcão

Tem coisas no sertão que não precisam de aviso, o cheiro avisa antes. Foi só o compadre Damião bater a poeira da canela e entrar aqui com um saco de fita amarrado nas costas que o mercado inteiro mudou de rumo.
Era goma de mandioca novinha, tirada na prensa lá pro lado do interior de Amarante. Aquele pó alvo que parece neblina quando a gente aperta na mão, frio e cheiroso que só ele.
Dona Francisca, que tava escolhendo querosene lá no fundo, encostou na hora. Não falou de preço, não perguntou o quilo. Pegou um bocado na ponta dos dedos, esfregou e disse: 'Essa dá um beiju de molhar no café que dá até raiva de tão bom'.
Negócio de comércio é esquisito. A gente vende arroz, feijão, sabão em barra, mas o que segura o povo parado em roda no meio da tarde é esse tempero de saber exatamente de onde o sustento veio.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
Receba gratuitamente a Edição nº 01 da Revista Literária, direto no e-mail.
Quero receber
