Mercado do Seu Chico
Revista literária docomerciante do Piauí
Prosa do balcão30 de setembro de 2026

O balaio de palha e os ovos de capoeira

O balaio de palha e os ovos de capoeira

Dona Lindalva nem bem botou o pé no chão de piçarra da porta e já deu pra ouvir o sussurrar macio da palha seca dentro do balaio de cipó. 'Seu Chico, veja aí se o sacolejo da vereda deixou algum trincado', disse ela, desatando o nó do pano de prato que cobria a encomenda. Por baixo do pano, duas dúzias de ovos de capoeira vinham acomodados um a um na palha de milho, lisinhos e avermelhados como a terra perto do rio.

Ela vem toda quinta-feira bem cedo, antes do sol esquentar a testada do mercado, trazendo esse capricho que a gente não acha em gôndola de cidade grande. Quem é pé rachado por aqui sabe o valor de um ovo de capoeira estalado na frigideira de ferro com um tiquinho de sal e farinha seca — a gema vem amarela forte, que chega ilumina o prato no café da manhã.

Ajeitei a mercadoria no canto do balcão de madeira, tirando com o polegar um fiapo de palha que ficou grudado numa casca. Fiquei olhando aquele arranjo feito à mão e pensei no cuidado de quem atravessou léguas de piçarra garantindo que nada se perdesse pelo caminho.

No sertão, a gente aprende cedo que o que tem valor de verdade não precisa de embalagem enfeitada; só precisa de paciência pra proteger o que é delicado até chegar inteiro ao destino.

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