O som do aço na pedra de amolar

— Seu Chico, dá uma molhada nessa pedra pra mim? O pedido veio de Seu Raimundo, que pisou no mercado com a poeira da roça cobrindo as canelas. Antes mesmo de pedir o quilo de sal ou a caixa de fósforo, ele tirou do bolso aquele canivete velhinho, de cabo de chifre gasto pelo tempo, e buscou com os olhos a pedra cinzenta que fica descansando no canto do balcão.
O som do aço raspando na pedra molhada — aquele chi-chi-chi ritmado que corta o silêncio do comércio — tomou conta do espaço. Pouca gente nova dá valor ao segredo de uma pedra de amolar bem curtida na água. Tem que ter mão leve, firmeza na medida e não ter pressa de ver o fio nascer, senão cega de vez ou estraga o metal todo.
A gente ficou ali em silêncio por uns minutos, só ouvindo o movimento cadenciado da mão dele e sentindo aquele cheiro úmido de pedra e ferrugem subindo no ar. Ferramenta cega faz o homem cansar o dobro pra fazer a metade. Seu Raimundo passou o polegar com cuidado no fio recém-feito, deu um sorriso tranquilo, guardou a lâmina na algibeira e disse: "Pronto, Chico, agora a roça pode chamar que eu tô pronto, visse!".

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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