A fumaça da panelada na madrugada

Cinco horas e meia da manhã e a chave nem tinha terminado de girar no cadeado da porta de ferro, quando o vento trouxe o recado. Cheiro de cominho, pimenta e bucho bem cozido subindo da cozinha de dona Valtéria, bem ali do outro lado da rua.
No Piauí, quem acorda cedo pra trabalhar, não quer saber de conversa fraca. Cícero Vaqueiro já tava encostado no balcão de madeira, de chapéu na mão, só esperando eu organizar as prateleiras pra pegar uma garrafinha de pimenta e tirar o fiado antes de encarar o prato fumegante.
'Seu Chico, panelada no café da manhã é o que segura o juízo e o corpo até o meio-dia', ele me disse, ajeitando a sela no ombro. Fiquei rindo, entregando o troco das moedas enquanto o aroma de comida forte tomava conta da entrada de terra batida.
O dia por aqui não começa no ponteiro do relógio. Começa na sustança do prato e no bom dia sincero de quem sabe que o trabalho pesado fica mais leve quando a gente tá alimentado.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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