A paçoca que chama o vento

Tem cheiro que abre mais a porta do mercado do que a própria chave. Toda terça de manhã, quando dona Rita entra com o pote de paçoca de carne seca socada no pilão com farinha da boa, não fica uma alma na rua.
Ela não pede dinheiro. Chega devagarzinho, bota o pote do lado da balança e diz que quer trocar por dois tabletes de sabão e um maço de vela. Eu sei bem que o valor da paçoca cobre muito mais, mas dona Rita não aceita troco em moeda.
O troco dela é sentar no banco de madeira, pegar uma xícara de café e contar como tá a criação lá pras bandas de Amarante. A carne de sol bem pisada, com aquela cebola roxa murchada no ponto, deixa o ar do mercado meio sagrado.
Às vezes entra freguês só pra cheirar o ar e perguntar se tem pra vender. Eu digo que não, que aquela ali é de consumo da casa. No fundo, é o tempero que segura a gente conversando até o sol virar.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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