A noite em que a luz apagou

Quando falta luz no interior, a conversa acende. Era comecinho de noite de quinta, o mercado cheio de gente buscando cheiro-verde e arroz pra fazer uma Maria Isabel reforçada no jantar, quando o breu baixou de uma vez.
Em vez do povo chiar e ir embora, escutei só o estalo de um risco de fósforo. Acendi duas lamparinas velhas que guardo atrás do balcão do sabão e risquei uma vela de sete dias pra iluminar o corredor das prateleiras.
A calçada da frente virou banco de praça. Dona Tetê sentou num saco de farinha, seu Lauro encostou na porta e começaram a lembrar dos tempos do Reisado de antigamente, dos mascarados do Jaraguá correndo atrás da meninada no meio da rua.
A energia demorou duas horas pra voltar. Quando as lâmpadas acenderam de novo, deu até uma tristeza. O povo piscou os olhos, riu da surpresa e quase ninguém lembrava mais do que tinha vindo comprar.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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