A máscara que esperava janeiro

— Seu Chico, segura essa careta aí no canto de cima, perto das lamparinas, que a tinta de jatobá ainda tá grudenta — pediu o velho Zezinho, soltando uma máscara de madeira esculpida sobre o balcão. Era a figura do Jaraguá, meio bicho e meio gente, talhada pras festas de Reisado que correm o norte do Piauí, lá pras bandas de Boa Hora.
O cheiro de tinta caseira misturado com resina fresca tomou conta do mercado na hora. Quem entrava pra comprar um quilo de sal ou puxar conversa parava o passo na soleira da porta, surpreso com aqueles olhos pintados com urucum olhando fixo pras prateleiras de mantimento.
Dona Das Dores, que vinha apressada buscar massa de milho, encostou a mão na borda do balcão e sorriu de canto de boca. 'A promessa desse ano vai ser grande, né, Zezinho?'. O velho só balançou a cabeça devagar, sabendo que a festa não começa na noite em que a gente veste o disfarce, mas no dia em que a madeira ganha forma nas mãos de quem guarda a memória do lugar.
Passei a tarde dividindo a atenção entre o troco das contas e aquela fisionomia de madeira guardando o balcão. Tem coisa que a gente vende pra arrumar a vida, mas tem tradição que a gente só acolhe no balcão pra ver a alegria do povo continuar inteira.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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