A marca na pedra de Oeiras

O estalo seco da pedra batendo no tampo do balcão fez a poeira dançar na nesga de sol que entrava pela porta. Foi Compadre Zequinha quem soltou aquela pedrinha escura e lisa sobre a madeira maciça, logo depois de encostar a bicicleta poeireira na soleira. Ele vinha lá das bandas de Oeiras, com o chinelo de couro gasto mostrando o calcanhar rústico de quem é pé rachado com orgulho e não troca a piçarra do interior por asfalto nenhum.
— Seu Chico, passei pela beira do Canindé e me lembrei da pedra do Pé de Jesus, lá da nossa velha capital — ele disse, tirando o chapéu pra enxugar a testa e me pedindo uma caneca d’água fria. A gente ficou ali observando a pedrinha redonda, polida por anos de correnteza. Naquelas terras antigas de Oeiras, a fita da história é comprida: o povo conta com fé que até a pisada do Sagrado ficou gravada na rocha pra ensinar que nenhuma caminhada se perde.
Enquanto servia a água tirada do filtro de barro, olhei pro meu próprio balcão de angico. Décadas de sacos de sal empurrados, trocados de moedas contadas e cotovelos cansados ali apoiados deixaram um fundo fosco e afundado na madeira, do tamanho exato da fresta do meu braço. Oeiras guarda o rastro da fé na pedra, mas o balcão da gente guarda a marca do trabalho de todo dia.
Compadre Zequinha tomou a água num gole demorado, guardou a lembrança no bolso da camisa de pano grosso e pediu duas rapaduras pra aguentar a volta. O sertão pode ser seco de doer, visse!, mas não tem poeira de piçarra que apague o rastro firme de quem vive com honestidade.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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