Mercado do Seu Chico
Revista literária docomerciante do Piauí
Prosa de balcão18 de setembro de 2026

A luz presa na pedra

A luz presa na pedra

Você já viu fogo brilhar por dentro da água? Pois foi isso que Seu Totonho tirou de dentro do bolso do colete de brim, enrolado num pedaço de pano de saco limpo. Ele vinha descendo a estrada lá das bandas de Pedro II com a jumenta carregada, a piçarra fina grudada nas pestanas, e encostou no balcão pedindo só uma caneca d'água pra lavar a garganta do mormaço.

Quando ele desdobrou o pano, a luz amarela do fim de tarde que entrava pela porta bateu certeira na pedra. Por fora não dava nada: parecia um cascalho cinzento e bruto, desses que a gente chuta na poeira do caminho sem dar valor. Mas foi só virar o topo contra o sol que apareceu um azul de céu e um verde de mata molhada, dançando juntinho lá no fundo.

Compadre Damião, que tava arengando no canto por causa do preço da rapadura, calou a boca no mesmo instante. Encostou o cotovelo no balcão, tirou o chapéu de palha da cabeça e ficou olhando estático, como quem vê milagre em feira livre.

Seu Totonho sorriu devagar, mostrando o único dente de ouro que tem na frente, e disse que a terra do sertão é de uma lida bonita: passa o ano esturricada na chapa do sol, parecendo morta, mas por dentro guarda segredo que só se mostra pra quem tem paciência de garimpar.

Fiquei olhando aquele pedacinho de opala reluzindo no meu balcão de madeira escura e pensei comigo que o nosso povo é feito do mesmo molde. A gente é meio casca dura por fora por causa da poeira e do mormaço da vida, mas basta uma réstia de luz certa pra mostrar que por dentro tem uma lindeza que não se apaga fácil, visse!

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