A linha que costura o sertão

Seu Antenor bateu as perneiras de couro na soleira da porta antes mesmo de dar o bom-dia. Trouxe pra dentro do mercado aquele cheiro forte de mato raspado, sebo de gado e sol quente que gruda na roupa de quem passa o dia no rastro da boiada.
Ele tirou a luva rasgada do bolso do gibão, colocou em cima do balcão de madeira e me pediu dois retrós de linha de sapateiro e uma agulha de fundo largo. "Chico, o mofumbo hoje me pegou de jeito na serra, mas terno de vaqueiro não se entrega fácil não", disse ele, passando o dedão calejado por cima do rasgo no couro desbotado.
Quem vê de fora acha que esse vestuário é só enfeite de tradição, mas pra quem roda o sertão do Piauí fechado no carrasco, o couro é a própria pele reforçada. É o que separa a carne do espinho de catinga-de-porco e da ponta seca do jacarandá.
Enquanto eu procurava a agulha na gaveta de miudezas do balcão, ouvi o estalo da linha sendo testada nos dedos dele e pensei que a gente por aqui aprende cedo essa lição: sertanejo não rasga por qualquer rasgão, e quando rasga, sabe exatamente onde dar o nó.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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