A lenda que o rio trouxe

Quem mora perto da ribanceira do Parnaíba sabe que quando o sol se esconde atrás das carnaúbas, o rio muda de conversa. O vento sopra diferente e as histórias velhas ganham corpo no escuro.
Estava quase na hora de encostar as portas quando o Tiago, um jovem rapaz que ajuda na vazante, entrou aqui meio apressado, limpando o suor da testa na manga da camisa. Olhou pra trás duas vezes antes de encostar no balcão e pedir um café.
Perguntei o que tinha havido. Ele me contou que vinha descendo o caminho sozinho e jurava ter escutado um lamento comprido subindo da água, feito gente pedindo socorro — aquela história antiga do Cabeça de Cuia que todo mundo escuta desde menino.
Servi o café bem quente na xícara de louça verde. Deixei ele tomar um gole, suspirar fundo, e disse: 'Tiago, o rio é grande e guarda muito som do vento. Mas assombração nenhuma entra onde tem luz de candeeiro e gente do bem'. Ele sorriu, o peito sossegou, e a noite voltou a ser só noite.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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