A goma nova no fundo da cuia

Dona Zefinha nem disse bom dia direito. Chegou encostando um saco de pano cru por cima do balcão de madeira e desfez o nó de cordel com a ponta dos dentes, soltando aquele pozinho branco que fica boiando na luz que entra pela porta. "Mexe aí, Seu Chico, pra o senhor ver o que é goma de verdade", ela falou, ajeitando o lenço na cabeça com orgulho de quem passou o dia anterior inteiro na casa de farinha.
Fui de enfiar a mão e sentir aquele frio gostoso da goma nova, recém-tirada da tina. Quem é criado no interior sabe o mistério desse negócio: se você aperta o punhado com força na palma, ela vira uma pedra dura; mas se abre os dedos devagarzinho, ela escorre inteira feito leite grosso. É a mandioca da nossa terra transformada na força do braço e no capricho do enxágue.
Ajeitei duas cuias bem cheias no prato de latão da balança pra bater no troco do café e da rapadura que ela veio buscar. Dona Zefinha acompanhava o ponteiro de ferro mexendo devagar, sem pingo de pressa. A vida da gente no sertão tem muito disso: pra virar coisa limpa e proveitosa, tudo precisa do seu tempo de assentar no fundo da vasilha.
Quando ela ganhou o rumo da rua de piçarra com as compras no armão, a marca branca dos dedos dela ficou carimbada na madeira escura do balcão. Olhei praquilo com calma e pensei comigo que o beiju de todo dia só sai macio porque a gente aprendeu a ter paciência com o tempo da terra.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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