Mercado do Seu Chico
Revista literária docomerciante do Piauí
Prosa do balcão21 de setembro de 2026

A fumaça da castanha no caco

A fumaça da castanha no caco

Antes mesmo de Seu Carlinhos dobrar a esquina da piçarra com a bicicleta carregada, o cheiro de fumaça pesada e doce já avisava quem estava chegando. Era dia de assar castanha de caju no caco lá nos fundos do terreno dele, e as mãos de Carlinhos vinham daquele jeito: encardidas da nódoa preta do leite, pele grossa de quem não se assusta com sapecado de fogo.

Ele encostou na soleira, tirou do bolso do paletó velho um paninho de prato e desembrulhou um punhado de castanha ainda morna. Nem bem colocou sobre o balcão de madeira escura, o movimento no mercado mudou de rumo. O estalo seco da casca queimada se quebrando na mão da gente tem um som que chama o povo como quem bate sino na matriz.

Dona Maria do Socorro, que vinha só buscar um quilo de quibebe, parou o passo na hora e pegou uma pra descascar. Tem coisa que a gente não compra com moeda redonda, visse! O sertanejo passa a vida inteira aprendendo que o óleo que queima a mão por fora é o mesmo que deixa o miolo doce por dentro.

Ficamos ali os três, dividindo o morno da castanha e vendo a poeira da rua ficar dourada no sol poente. No interior do Piauí, comerciante bom não é o que conta o trocado mais rápido; é o que sabe abrir espaço no balcão pra vida soprar seu cheiro.

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