A folha do caderno de fiado

— Seu Chico, dá uma olhada aí na minha folha que hoje o sol virou a meu favor.
Compadre Zezito nem bem tirou o chapéu de palha da cabeça e já encostou a mão grossa de roça no meu balcão de madeira. Tirou do bolso da camisa duas notas amassadas, dobradas em quatro, daquele jeito cuidadoso de quem guarda o fruto do trabalho em pano fundo.
Puxei de debaixo da balança de prato o meu caderninho de brochura de capa preta, com as pontas gastas e cheirando a papel antigo misturado com fumo. Cada página daquela é o rastro da vida da gente da nossa rua: tem o quilo de açúcar que salvou o café da dona Maria quando o menino adoeceu, a lata de óleo do seu Raimundo na seca do ano passado, o feijão que ficou pra depois da colheita.
Corri o dedo teso pela folha amarelada até achar o nome de Zezito escrito a caneta azul. Ele ficou olhando em silêncio, acompanhando o som miúdo da caneta rasurando a dívida, num risco firme que parecia selar um pacto. Não precisa de papel assinado em cartório nem de folha timbrada de cidade grande; no interior do Piauí a palavra de um homem tem o peso de uma pedra de piçarra.
Quando dei a conta por paga e passei o troco, sirvi um café bem quente na xícara de alumínio. Zezito tomou um gole devagar, olhou pra poeira da rua brilhando no sol do meio-dia e sorriu. O dinheiro compra o mantimento pra botar no fogo, visse, mas o que faz o pé rachado andar de cabeça erguida por esse sertão é saber que a confiança da gente cabe inteira numa folha de papel.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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