Mercado do Seu Chico
Revista literária docomerciante do Piauí
Prosa do balcão24 de agosto de 2026

A chuva que fechou o mercado e abriu a conversa

A chuva que fechou o mercado e abriu a conversa

Choveu de um jeito que eu nunca vi. Água descendo a rua de terra como se fosse córrego. Fechei a porta do mercado mais por educação com a chuva do que por vontade de descansar. Só que três fregueses tinham ficado aqui dentro, sem coragem de encarar o temporal.

Puxei três banquinhos. Passei café. E aí aconteceu o que raramente acontece no meio da semana: as pessoas não tinham pra onde ir. Sem pressa, a conversa muda de qualidade. Deixa de ser sobre preço de feijão e passa a ser sobre a vida.

Dona Zulmira contou do marido que aprendeu a fazer pão depois de velho. O rapaz da bicicleta contou que queria estudar de noite. O seu Batista não contou nada, mas escutou tudo, e escutar também é contar.

Quando a chuva parou, ninguém quis ir embora logo. Ficaram mais um tanto, olhando a água escorrer na calçada. Naquele dia eu não vendi quase nada. Mas foi o dia em que o mercado mais serviu pra alguma coisa.

Desde então eu penso: talvez o comércio de interior não seja sobre o que a gente guarda na prateleira. É sobre ter um teto pra quando a chuva pegar a pessoa no meio do caminho.

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