A chuva que baixou a poeira

A chuva grossa estalou na telha de barro o canal e levantou aquele bafo quente de poeira bem na soleira do mercado. Nem precisou olhar pro céu pra saber: a trovoada vinha descendo do lado da serra, fechando o tempo num cinza bonito demais de se ver.
Compadre Chagas de Sousa vinha passando de bicicleta na piçarra e deu um cavalo de pau pra se abrigar debaixo do nosso puxado. Encostou o chapéu de couro no balcão, limpou o suor da testa com o cabo da manga e me olhou sorrindo de orelha a orelha. Em menos de cinco minutos, a rua de terra virou um enxurro só e o mercado encheu de gente que vinha correndo pra se juntar debaixo do mesmo teto.
O cheiro de terra molhada entrou cobrindo tudo, e o barulho da água no telhado deixou todo mundo em silêncio por um pedaço, só escutando. No sertão, pingo de chuva não é só água que cai do céu: é a terra limpando a garganta pra voltar a cantar. Sirvi uma caneca de café bem quente pro compadre e ficamos ali, vendo o mundo se renovar da soleira da porta.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
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