A água do filtro de barro

O som que mais sossega este mercado no meio da tarde não é o rádio nem conversa de comprador: é o pingo compassado caindo no fundo do filtro de barro, ali no canto do balcão.
Seu Valdemar encostou aqui vindo a pé lá da estrada de piçarra, com a poeira grudada nos cílios e o chapéu de palha desfiado estalando de seco pelo mormaço. Nem deu boa-tarde de imediato: foi direto pra caneca de alumínio que fica pendurada no gancho de arame do lado do filtro.
Água de filtro de barro no interior do Piauí não serve só pra matar a sede da garganta; ela baixa a febre da alma. O barro que suenta por fora entrega o barro frio por dentro, com aquele gosto vegetal de terra limpa que geladeira nenhuma no mundo consegue copiar.
Valdemar tomou duas canecas fundas sem respirar, enxugou a boca na manga da camisa e só então soltou um suspiro comprido pra me pedir meio quilo de feijão-fava. Sertanejo com calor não precisa de muita explicação: basta a sombra do balcão e a caneca d'água pra devolver a fala pro lugar.

Revista Literária · Edição nº 01
Memórias de Balcão
Do Mercado do Seu Chico · Edição nº 01
Receba gratuitamente a Edição nº 01 da Revista Literária, direto no e-mail.
Quero receber
